Conservação da biodiversidade em paisagens antropizadas:
Conservação da Biodiversidade:
O termo conservação tem uma trajetória complexa quando aplicada ao uso do mundo natural pelos seres humanos (Hunter & Gibbs, 2007). A Conservação muitas vezes, se confunde com o termo preservação. A “Global Biodiversity Strategy” http://www.wri.org/publication/global-biodiversity-strategy (WRI, IUCN, UNEP, 1992), define conservação como "a gestão do uso humano da biosfera para que possa produzir o maior benefício sustentável às atuais gerações, mantendo seu potencial para atender às necessidades e as aspirações das gerações futuras: dessa forma, a conservação engloba a manutenção, a preservação, a utilização sustentável, a restauração e a valorização do ambiente natural. Assim, conservação se distingue de preservação, pois esta última significa o não-uso do meio natural.
Biodiversidade é amplamente definida como a variedade e variabilidade natural entre os organismos vivos e os complexos ecológico sem que eles ocorrem. E contém 3 níveis fundamentais: a diversidade de ecossistemas, a diversidade de espécies e a diversidade genética (OTA, 1987 apud Noss, 1990). Noss (1990) acrescenta a esse conceito os processos, tais como: as interações interespecíficas, as perturbações naturais e os ciclos de nutrientes.

Definição de paisagens antropizadas:

Uma área pode ser classificada como antropizadas mesmo que pareça natural, tais como pastagens que foram desmatadas por seres humanos. Pode ser difícil determinar o quanto um determinado local foi antropizado no caso da urbanização, pois para isso, é preciso ser capaz de estimar o estado da paisagem antes da ação humana http://en.wikipedia.org/wiki/Anthropization.

Os processos antrópicos relevantes para a alteração da paisagem:
Os processos antrópicos são os principais responsáveis pelas alterações na paisagem natural, cada um dos processos: intensificação das agriculturas e das pastagens, manejo do solo com o uso do fogo, urbanização e desflorestamento moldam a biodiversidade com intensidades variáveis. A progressiva antropização dos ambientes diminuem as zonas ocupadas por ecossistemas naturais em várias partes da biosfera (Rastelli et al, 2003).

Intensificação da agricultura: O Brasil é um dos líderes mundiais na produção e exportação de produtos agrícolas. A safra de grãos no Brasil em 2010/2011 deve chegar a 153 milhões de toneladas, mais um recorde de produção no Brasil. A estimativa representa aumento de 2,6% sobre a safra passada, que foi de 149,2 milhões de toneladas. Com relação ao último levantamento, realizado em Janeiro, a produção cresceu 2,4%, o equivalente a 3,6 milhões de toneladas. Os dados são do 5º. levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Já a área de cultivo deve aumentar 3,1%, alcançando 48,8 milhões de hectares. A razão do crescimento da produção é a ampliação de áreas de cultivo do algodão (56,1%), do feijão 1ª e 2ª safras (8,4%), da soja (2,8%) e do arroz (2,5%), aliada, principalmente, à menor influência do fenômeno La Niña sobre as culturas, o que fez com que a má distribuição das chuvas fosse menos prejudicial à produtividade.
Entre as culturas, o algodão apresenta o maior aumento de área. Os 56,1% a mais em relação à safra passada podem levar a uma produção de 1,9 milhão de toneladas de pluma, ou seja, 756 mil toneladas a mais. Anteriormente, foram colhidas 1,2 milhão de toneladas. O feijão total vem em segundo lugar, com crescimento da área de 8,4%, o que representa 3,9 milhões de hectares. A produção eleva-se em 13,6% e vai para 3,7 milhões de toneladas. A área do grão 1ª safra é de 1,5 milhão de hectares, com previsão de produção de 1,7 milhão de toneladas. Já o feijão 2ª safra tem previsão de área de 1,6 milhão de hectares e produção de 1,3 milhão de toneladas.
No caso da soja, o crescimento de 2,8% na área contribui para um volume de 24,1 milhões de hectares. A produção do grão terá aumento de 2,1%, alcançando 70,1 milhões de toneladas. A soja já está sendo colhida em Mato Grosso, Goiás e Paraná. A contribuição da área do arroz para o desempenho da safra, comparada a de outras culturas, foi menor. O crescimento foi de 2,5%, elevando o volume para 2,8 milhões de hectares. No caso da produção, houve um aumento de 10%, ou 12,8 milhões de toneladas a mais em relação à safra anterior. O inverso ocorre com o milho. O grão 1ª safra tem queda de área de 0,4%, ou seja, 28 mil hectares, devendo chegar a 7,7 milhões de hectares. A produção perde 3,6%, alcançando 32,8 milhões de toneladas. Para o milho 2ª safra, a intenção de plantio é semear 5,4 milhões de hectares (+ 3,2%), para produzir 21,65 milhões de toneladas. A produção total do cereal deverá ser de 54,5 milhões de toneladas, 2,6% menor que a safra passada, que foi de 56 milhões de toneladas.
No Cerrado a grande exploração agropecuária desenvolvida a partir da década de 70 fez com que 67% das áreas de Cerrado sejam hoje consideradas como "altamente modificadas" (Mantovani e Pereira, 1998). Apenas 20% encontram-se em seu estado original, destas apenas 3% estão protegidas em parques e reservas federais e estaduais (Mittermeier et al., 1999). Esta situação se agrava pela falta de leis efetivas de proteção desse, a começar pela omissão do Cerrado como patrimônio natural na Constituição brasileira.
Supressão da vegetação pelo fogo: Os incêndios florestais podem ser originadas por causas naturais, e em algumas regiões podem ter ocorrência sazonal. Porém, a maioria dos focos de calor são de causa antrópica, associada às condições climáticas, podem ter consequências catastróficas para a conservação da biodiversidade. O mapa abaixo, é um dado fornecido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) - Monitoramento de Incêndios e Queimadas por Satélite em Tempo Quase-real e mostra os focos de calor em sobreposição com as áreas de maior risco de incêndios e queimadas.

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Desflorestamento: o desmatamento das florestas tropicais constitui uma das maiores ameaças à biodiversidade e a sua conservação sendo a sexta causa de extinções (Kinnaird, 2003). O Brasil tem sistemas para monitoramento da cobertura vegetal para todos os biomas brasileiros. Desde 1988 o Projeto de Monitoramento da Floresta Brasileiro por Satélite - PRODES - INPE vem monitoramento a Amazônia Legal por imagens de satélite. Recentemente, os outros biomas brasilieiros também vem sendo monitorando pelo Sistema de Monitoramento por Satélite do Desmatamento nos Biomas Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal - PMDBBS (IBAMA). De acordo com o IBAMA (2009) a taxa de desmatamento anual está estimada em 0,7%, e já foi contabilizada a perda de 47,84% de suas fisionomias vegetais].


]Alguns pesquisadores contrapõem estes dados, considerando-os muitos otimistas, pois inclui algumas fisionomias antropizadas como vegetação remanescente, contudo são os dados oficiais utilizados pelo Governo Federal.
Pastagens:
Urbanização:
Espécies invasoras: as espécies invasoras são organismos que ocupam habitats fora da sua área de distribuição natural (MMA, 2006). São responsáveis ​​por muitos registros de extinções de espécies, especialmente nas ilhas ou em ecossistemas isolados (WRI, IUCN, UNEP, 1992). As espécies introduzidas substituem as floras e faunas nativas por meio da competição, predação ou parasitismo, e podem mudar a dinâmica de funcionamento dos sistemas (Myers, 1941). São consideradas a segunda maior causa de extinção de espécies no planeta, afetando diretamente a biodiversidade (GISP, 2005). No Brasil, de acordo com dados publicados pelo Ministério do Meio Ambiente, há 176 espécies exóticas invasoras que afetam o ambiente terrestre, sendo 68 da fauna 68 e 108 da flora e 115 que afetam o ambiente aquático, sendo 66 marinhas e 49 em águas continentais (MMA, 2006).
Sobreexploração dos recursos naturais:

Contaminação ambiental:

Conseqüências da antropização para a biodiversidade:
Alteração, fragmentação e perda de hábitats:
Extinções locais:as atividades humanas têm acelerado o ritmo da extinção entre a maioria dos táxons em todo o globo, a expansão da população humana tem causado extinções de inúmeras espécies e ameaça a persistência de outras tantas, por inúmeros processo antrópicos. As extinções podem ser mensuradas pela perda, a degradação e a fragmentação de hábitats (Groom, 1997). A IUCN //Red List of Threatened Species// tem por objetivo avaliar o estado de conservação das espécies vegetais e animais, e usa uma série de critérios para classificar os sseres vivos em categorias de risco de extinção.
Perda de biodiversidade genética:

Instrumentos para a conservação em paisagens antropizadas:

Criação e gerenciamento de áreas protegidas: Unidades de conservação (UCs), são espaços territoriais e seus componentes, abrangem as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituídas pelo poder público, com objetivos de preservação/conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção. As unidades de conservação podem ser de uso indireto quando não envolvem consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais e de uso direto quando envolvem o uso comercial ou não dos recursos naturais, como definidas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc).
Terras indígenas (TI), assim como as UCs, são áreas protegidas legalmente, pela Constituição definidas como bens da União, inalienáveis e indisponíveis, destinadas à posse e ao usufruto exclusivo dos índios que as ocupam, constituindo-se espaços privilegiados para a conservação da diversidade biológica.
Áreas de interstício são aquelas situadas entre as UCs e áreas indígenas, podendo pertencer ao domínio público ou privado. Nesse contexto enquadram-se as demais áreas protegidas, tais como as áreas de preservação permanente, reservas legais, reservas particulares de patrimônio natural e áreas não protegidas.
O Corredor Central da Mata Atlântica possui 83 unidades de conservação. As unidades estaduais abrangem 53% de toda a superfície protegida e possuem, em média, 10.118 hectares. As 16 unidades de conservação federais totalizam 245.036 hectares, e as reservas privadas, 11.145 hectares. Esses espaços protegidos são locais privilegiados para o estabelecimento de estratégias e políticas públicas que visem ao restabelecimento e à manutenção da conectividade biológica.

Corredores: Corredor ecológico ou corredor de biodiversidade é o nome dado à faixa de vegetação que liga grandes fragmentos florestais ou unidades de conservação separados pela atividade humana (estradas, agricultura, clareiras abertas pela atividade madeireira, etc.), proporcionando à fauna o livre trânsito entre as áreas protegidas e, conseqüentemente, a troca genética entre as espécies.

É um conceito surgido na década de 1990 e uma das principais estratégias utilizadas na conservação da biodiversidade de determinado local. A eficiência dos corredores, porém, é um assunto controverso, pois há poucos estudos, em geral feitos no hemisfério norte, que confirmam a adoção dos corredores pelos animais.
O corredor ecológico ou corredor da biodiversidade é destinado à conservação ambiental em nível regional. É uma rede de áreas protegidas que passam por graus de ocupação humana.
O manejo nestes corredores ocorre de forma integrada para desenvolver a possibilidade de sobrevivência das espécies, do ecossistema e de uma economia local sustentável que respeite os recursos naturais. Na Mata Atlântica, os corredores de biodiversidade objetivam conectar os fragmentos de florestas.
Ligar um trecho de mata a um outro trecho é uma das principais funções do corredor ecológico, para que uma área protegida não fique isolada e possa se abrir para outros locais e espécies nativas. O projeto de um corredor ecológico permite o trânsito de espécies de fauna e flora entre as matas interligadas.
No Brasil, os corredores ecológicos são planejados e executados pela iniciativa governamental e pelas ONG´s ambientais. Entre os corredores brasileiros podemos destacar:
- Corredor central da Mata Atlântica;
- Corredor central da Amazônia;
- Corredor do Amapá;
- Corredor do Cerrado;
- Corredor da Serra do Mar;
- Corredor do Nordeste.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente do Brasil, os Corredores Ecológicos são definidos como grandes áreas florestais, biologicamente prioritárias e viáveis para a conservação da diversidade biológica, compostos por conjuntos de Unidades de Conservação, Terras Indígenas e Áreas de Interstício. Até o momento, foram selecionados dois corredores: o Corredor Central da Amazônia e o Corredor Central da Mata Atlântica. Este projeto apresenta uma nova estratégia de conservação da biodiversidade, indo além do paradigma das “ilhas biológicas” constituídas pelas unidades de conservação, para propor o manejo integrado de grandes extensões de terra mediante o uso gradativo de seus recursos, desde a conservação estrita até o aproveitamento sustentado.
Até há pouco tempo, os principais instrumentos para proporcionar a conservação da diversidade biológica in situ, sobre a qual o Estado exerce o direito de posse e controle, eram as unidades de conservação públicas. O conceito de corredores ecológicos ou corredores de biodiversidade é relativamente novo, inicialmente colocado em prática nos Montes Apalaches, ao leste dos Estados Unidos, e não havia outros exemplos de sua utilização. Hoje a estratégia de corredores vem sendo implementada em vários países do mundo, especialmente naqueles em desenvolvimento.
"Corredor ecológico", usado pelo Projeto Corredores Ecológico do Ministério do Meio Ambiente, ou "corredor de biodiversidade", refere-se à mesma estratégia de gestão da paisagem. Nessa concepção, englobam todas as áreas protegidas e os interstícios entre elas. Os cordões de vegetação nativa que conectam fragmentos definidos como corredores ecológicos no Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC, são um dos componentes dos corredores, mas não o único.
Corredores ecológicos não são unidades políticas ou administrativas; são áreas onde se destacam ações coordenadas, com o objetivo de proteger a diversidade biológica na escala de biomas. Essas ações envolvem o fortalecimento, a expansão e a conexão de áreas protegidas dentro do corredor, incentivando usos de baixo impacto, como o manejo florestal e os sistemas agroflorestais; além do desencorajamento de uso de alto impacto, como o desmatamento em larga escala. A implementação de corredores ecológicos demanda alto grau de envolvimento e cooperação de instituições e de interessados de diversos setores. Em suma, o conceito de corredor ecológico simboliza abordagem alternativa às formas convencionais de conservação da diversidade biológica que é, a um só tempo, mais abrangente, descentralizada e participativa.

Os Corredores Ecológicos das Florestas Tropicais do Brasil
O Brasil, com quase 1/3 das florestas tropicais remanescentes no mundo (Mata Atlântica e Amazônia), é reconhecidamente um dos mais importantes repositórios da diversidade biológica mundial. Infelizmente, estas áreas têm sido rapidamente convertidas para outros usos. Números oficiais indicam que o desmatamento já afetou cerca de 11% da Amazônia e 92% da Mata Atlântica. O impacto total sobre estes ecossistemas é, provavelmente, ainda maior do que estes números indicam, dado o efeito cumulativo do desmadeiramento seletivo, da poluição, da pesca e da caça, todos largamente distribuídos em ambas as regiões. As estratégias tradicionais para conservação da biodiversidade têm-se enfatizado na criação de áreas protegidas intactas, livres das intervenções humanas. Enquanto estas áreas possuem um enorme potencial de conservação, a conservação de biodiversidade a longo prazo requer o desenvolvimento de uma abordagem que inclua o manejo de zonas tampão e de corredores biológicos. Este projeto propõe a adição ao paradigma das “ilhas biológicas”, o paradigma dos “corredores biológicos”, conectando áreas protegidas dentro dos biomas regionais. Isto será realizado desenvolvendo-se modelos inovadores de manejo que incorporem as comunidades tradicionais e outros atores relevantes. Durante a primeira fase do projeto, as atividades estarão mais direcionadas ao Corredor da Amazônia Central e ao Corredor Central da Mata Atlântica. Atividades iniciais de planejamento e implementação serão realizadas em um corredor adicional na Mata Atlântica e em quatro outros corredores na Amazônia. O manejo efetivo destes sete corredores poderá conservar pelo menos 75% da biodiversidade presente nas florestas tropicais brasileiras.
Inicialmente, parceiros institucionais (públicos e privados) nos níveis estadual e federal foram envolvidos no desenho do Projeto dos Corredores de Florestas Tropicais através de uma série de entrevistas de campo e de workshops realizados em ambas as regiões. As comunidades locais serão envolvidas na identificação e no desenho de projetos de manejo de zonas-tampão piloto, e na participação no processo de manejo de áreas protegidas. Tópicos que serão abordados incluem a participação dos atores relevantes, as necessidades de monitoração e fiscalização, desenho e implementação de programa de pesquisa aplicada, zoneamento e planejamento do uso sustentado dos recursos, capacitação institucional, desenvolvimento progressivo de estruturas colaborativas de gestão e sustentabilidade a longo prazo. Será adotada na implementação do projeto uma abordagem descentralizada e de bases amplas, promovendo a participação ativa dos atores e o recrutamento de uma variedade de agências governamentais, unidades de pesquisa e ONGs como parceiros. A seleção de ONGs será baseada na capacidade técnica comprovada e na experiência na área. O desenho das atividades do projeto irá incluir agências a nível estadual e municipal, buscando aumentar sua efetividade na conservação da biodiversidade. O gerenciamento do projeto, sugere-se, será de responsabilidade dos coordenadores dos corredores e seu respectivo conselho deliberativo. Em cada corredor, coordenadores do projeto irão apoiar as organizações executoras e supervisionar a implementação de projetos piloto. A coordenação dos esforços das diversas organizações envolvidas será atingida através dos Comitês de Deliberativos dos Corredores, que apreciarão os progressos do projeto e formularão sugestões de novas opções para aumentar a viabilidade do projeto. A coordenação dos corredores será apoiada por equipe técnica. À medida que os projetos-piloto forem sendo desenvolvidos, Conselhos Locais serão formados para promover um amplo entendimento e apoio às atividades do projeto, para fornecer idéias adicionais sobre a conservação local e as prioridades no manejo de recursos, e para sugerir opções adicionais para os objetivos de desenvolvimento integrado e conservação. De acordo com a natureza inovadora das propostas para o manejo da biodiversidade regional e para a participação de amplas bases sociais, o projeto promoverá oportunidades para o intercâmbio de técnicos e atores entre os parceiros institucionais, grupos comunitários locais, e outros grupos interessados. As lições obtidas durante esta primeira fase serão integradas numa segunda fase a ser proposta para o desenvolvimento continuado e implementação dos corredores adicionais em ambos os biomas.

O CORREDOR CENTRAL DA MATA ATLÂNTICA: UMA NOVA ESCALA DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE
O Corredor Central da Mata Atlântica tem mais de 8,5 milhões de hectares e estende-se por todo o estado do Espírito Santo e pela porção sul da Bahia. Ele abrange dois centros de endemismo, definidos com base na área de distribuição de vertebrados (Müller, 1973; Kinzey, 1982; Costa et al., 2000; Silva et al., 2004), de borboletas (Tyler et al., 1994) e de plantas (Prance, 1982; Soderstrom et al., 1988). Nessa região, ocorrem várias fisionomias de floresta ombrófila, além de florestas semideciduais, restingas e manguezais, ao longo dos estuários. O extremo sul da Bahia e o norte do Espírito Santo constituem uma das principais áreas de mata de tabuleiro (uma variação da floresta ombrófila densa) do Corredor Central da Mata Atlântica. Comparada com as outras formações de matas neotropicais, a mata de tabuleiro é incomum devido à grande diversidade de espécies e à elevada densidade de lianas (Peixoto e Gentry, 1990). O Corredor Central da Mata Atlântica apresenta extrema riqueza biológica e abriga muitas espécies de distribuição restrita e ameaçadas de extinção (Prado et al., 2003; Aguiar et al., 2005; Ayres et al., 2005; IPEMA, 2005). Em estudo realizado pelo herbário da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e pelo Jardim Botânico de Nova York em uma reserva privada no município de Uruçuca (BA), foram encontradas 458 espécies de árvores em um hectare de floresta, recorde mundial de riqueza de plantas lenhosas (Thomas et al., 1998). Outro estudo, realizado na Estação Biológica de Santa Lúcia (ES), em área de floresta submontana (entre 600 e 900 metros de altitude), revelou a existência de 443 espécies de árvores também em um único hectare (Thomaz e Monteiro, 1997). A região entre os estados da Bahia e do Espírito Santo destaca-se ainda pela presença de diversos táxons tipicamente amazônicos associados à costa atlântica (Aguiar et al., 2005). A grande diversidade de espécies revela-se, também, na fauna de vertebrados. As comunidades de primatas do sul da Bahia e das terras altas do Espírito Santo são de particular interesse, tendo em vista que essa região é uma das poucas em que ocorrem os seis gêneros de primatas da Mata Atlântica. As 12 espécies que ocorrem no Corredor representam 60% das espécies de primatas endêmicos da Mata Atlântica (Pinto, 1994). O Corredor Central da Mata Atlântica possui mais de 50% das espécies de aves endêmicas do bioma (Cordeiro, 2003). Uma diversidade de aves excepcionalmente elevada aparece na Bahia. Foram descobertas recentemente cinco novas espécies e um novo gênero (Acrobatornis) no sul do estado (Aguiar et al., 2005). A relevância e a diversidade de ecossistemas existentes dentro dos limites do Corredor Central da Mata Atlântica, sejam eles terrestres (os mosaicos de florestas e ecossistemas associados) ou costeiros e marinhos (os manguezais, as restingas e as áreas de recifes de corais), todos com extrema importância biológica e em rápido processo de degradação, indicam a necessidade urgente de implantação dos espaços protegidos e de sensibilização dos moradores da região (Prado et al., 2005; IPEMA, 2005).

Áreas legalmente protegidas: O Código Florestal Brasileiro estabelece uma série de restrições do uso do solo que visa proteger a biodiversidade brasileira, tais como as Reservas Legais (RLs) e as Áreas de Preservação Permanentes (APPs). As APPs encerram grande biodiversidade, alto grau de especialização e endemismo, além de prover importantes serviços ecossistêmicos à sociedade, como a estabilização e regularização hídrica e geológica, manutenção de polinizadores e controle de predadores de pragas, doenças e das espécies exóticas invasoras (SBPC, 2011) e em muitas paisagens funcionam também como corredores ecológicos, provendo a conectividade, facilitando o fluxo de indivíduos da fauna ao longo da paisagem, garantindo a sobrevivência de muitas espécies e aumentando a diversidade genética Metzger (2010). As Reservas Legais como estabelece a lei, têm a função de assegurar o uso econômico de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e promover a conservação da biodiversidade, o abrigo e a proteção de fauna silvestre e da flora nativa.
Priorização de áreas importantes para a conservação: o conhecimento sobre a biodiversidade e como as alterações provocadas na paisagem interferem nos ecossistemas serão fundamentais para subsidiar o debate “desenvolvimento versus conservação” (Klink & Machado, 2005). Por isso a importância da utilização de metodologias de priorização que buscam compilar parte dessas informações e propor alternativas a esse processo dicotômico, oferecendo cenários aos tomadores de decisão e a sociedade em geral. Orientar as ações de conservação utilizando a metodologia da seleção sistemática representa uma oportunidade de aperfeiçoá-las, buscando também o desenvolvimento de atividades econômicas, já que ela permite simular vários cenários promovendo a conciliação da conservação da biodiversidade e os anseios da sociedade dita sustentável.
O conceito de hotspot é uma das maneiras de priorizar áreas importantes para a conservação da biodiversidade. Para ser qualificada como hotspot, uma região deve preencher pelo menos dois critérios, possuir um mínimo de 1.500 espécies de plantas vasculares endêmicas e ter 30% ou menos de sua vegetação original. O Cerrado brasileiro se enquadra nestas categorias, pois possui 4.400 espécies de plantas endêmicas, 289 espécies de vertebrados endêmicos: 17 espécies de aves, 14 de mamíferos, 33 de répteis, 28 de anfíbios, 200 de peixes de água doce (Myers, 2000 revisado por CI, 2010).


Zoneamento Ambiental: ferramenta de planejamento integrado, aparece como uma solução possível para o ordenamento do uso racional dos recursos, garantindo a manutenção da biodiversidade, os processos naturais e serviços ambientais ecossistêmicos. Esta necessidade de ordenamento territorial faz-se necessária frente ao rápido avanço da fronteira agrícola, a intensificação dos processos de urbanização e industrialização associados à escassez de recursos orçamentários destinados ao controle dessas atividades. Uma vez que nem todas as áreas que contribuem para a manutenção da biodiversidade podem ser amplamente protegidas, é recomendável a utilização de critérios técnico-científicos claros para a priorização. Vários autores destacam a necessidade de selecionar áreas consideradas importantes, seguindo métodos que possibilitem mensurar a contribuição de áreas diferentes, isoladas ou em conjunto, para a proteção da biodiversidade. Na lei 6.938/81, artigo 9º, inciso II, o zoneamento ambiental aparece como um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, sendo um tema de grande interesse nacional. Para a Coordenação de Zoneamento Ambiental do IBAMA, surge a importante responsabilidade operacional e procedimental de usar critérios explícitos de priorização dentro da temática biodiversidade, sempre de acordo com o regimento interno do IBAMA e segundo competências atribuídas (IBAMA, 2011).
Bibliografia utilizada:
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