Efeito de borda e qualidade de habitat
O efeito de borda sobre o ecossistema natural é caracterizado por mudanças abióticas (maior exposição a ventos, altas temperaturas e baixa umidade), biológicas diretas (mudanças na abundância e distribuição de espécies causadas diretamente por variações nas condições físicas das bordas) e biológicas indiretas (que envolvem mudanças nas interações ecológicas entre as espécies) (Murcia, 1995).
A vegetação da borda de um fragmento florestal usualmente apresenta menor diversidade, menor porte, menor permeabilidade, menor diâmetro médio das espécies arbóreas, maior espaçamento entre os indivíduos de maior diâmetro, além de se tornarem mais frequentes as espécies heliófitas (Zaú 1998). A produção de serapilheira, reflexo da produção de biomassa, também é menor na borda do que no interior dos fragmentos (Vidal et al. 2007).
Por vezes a borda é composta por uma vegetação mais densa, diminuindo a permeabilidade a alguns organismos. Isso pode acarretar na redução da dispersão e da predação de sementes (Baldissera & Ganade 2005). Por outro lado, pela alta incidência solar, espécies que habitam a matriz, frequentemente podem tolerar as condições das bordas dos fragmentos florestais, penetrando até certa distância (Murcia 1995), podendo resultar em altas taxas de predação de ninhos (Keyser et al. 1998) e de ninhadas. Mas estudos que se prestam a investigar esses padrões são contraditórios (Ries et al. 2004), até mesmo tratando-se dos parâmetros das comunidades (riqueza e abundancia de espécies) entre interior e borda (Ries et al. 2004).
Vale salientar que a importância relativa dos efeitos de borda vai depender também da forma e do tamanho do fragmento (Laurance & Yensen 1991). Considere, por exemplo, dois fragmentos com exatamente o mesmo tamanho, porém um deles com formato circular e outro com formato irregular. O primeiro será menos afetado pelos efeitos de borda do que o segundo já que tem uma menor razão entre o seu perímetro e a sua área (Laurence e Vasconcelos, 2009).
Isso porque o fragmento ou a mancha possui uma área núcleo, como representado na ilustração abaixo, caracterizada pela área do habitat adequado para um organismo que não sofre o efeito da borda. Por isso, determinar a distancia que o efeito de borda pode penetrar dentro do fragmento é importante para conservação (Ewres & Ddham, 2008). Alguns modelos têm sugerido que o efeito de borda exerce forte influencia sobre o tamanho populacional das espécies, onde seus efeitos aumentam com a diminuição da distancia entre o centro do fragmento, ou a área núcleo e a borda (Ewers & Didham, 2007).

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As matas de galeria em meio ao cerrado são um exemplo de que a paisagem heterogênea fragmentada naturalmente. No entanto, o efeito de borda é evidente no contato especialmente entre uma vegetação florestal nativa e áreas antrópicas, como pastagens, agriculturas, áreas urbanas etc, onde há uma transição drástica na estrutura dos dois ambientes (Murcia, 1995). As fisionomias savânicas e campestres podem sofrer outros tipos de pressão, mas as espécies ali presentes são heliófilas, já sendo tolerantes às condições de áreas abertas. Em estudo conduzido num cerrado sensu stricto, por exemplo, não foi observada diferença entre predação de ninhos no interior e na borda do fragmento (França & Marini 2009). Da mesma maneira, a estrutura da vegetação e a composição da comunidade de plantas não são alteradas nas bordas dos fragmentos de cerrado em áreas agrícolas (Queiroga 2000).
Os efeitos da modificação das paisagens naturais e a consequente fragmentação das mesmas são, atualmente, as maiores ameaças à biodiversidade (Fahrig, 2003; Fischer & Lindenmayer, 2007). A fragmentação do habitat é frequentemente definida como o processo através do qual uma grande área é transformada em pequenas manchas, com área total menor, isoladas por uma matriz diferente do habitat original (Fahrig, 2003). Esse processo promove uma diversidade de efeitos, modificando o tamanho e a dinâmica das populações, a composição e a dinâmica das comunidades, além de afetar as interações tróficas e os processos ecossistêmicos (Laurence e Vasconcelos, 2009).
O processo de fragmentação envolve a perda de habitat e as consequentes alterações na distribuição e configuração do habitat remanescente, podendo ser consideradas como as principais causas da extinção de espécies, devido à redução da área de hábitat disponível, à perturbação desse hábitat (especialmente nas suas bordas), e ao isolamento de pequenas populações nos fragmentos, tornando-as crescentemente suscetíveis a mudanças ambientais ou a variações demográficas (Fahrig, 2003).Esse processo tem mais consequências prejudiciais paraos ecossistemasterrestrestropicaisdo que qualqueroutro, tais como as alterações climáticaseespéciesinvasoras(Sodhi et al., 2008; Bradshawet al., 2009). Estamos diante deumataxade extinção resultante, principalmente,daperdade habitat, talvez milou maisvezesmaior,do queataxaconhecida,derivadadoregistro fóssil(Baillie et al., 2004).
A fragmentaçãoestá associada a complexas modificações de habitats, como porexemplo, ascondiçõesabióticasdoperímetrodosfragmentos quesãomodificadasporqueos habitatsde borda estãomaisexpostosao sol, vento e condições climáticas maisextremas (Bickford et al., 2010), sendo a borda de um fragmento a interface entre dois ecossistemas separados abruptamente.
Em trabalhos realizados com aves, ficou comprovado que a fragmentação pode limitar o potencial de aves frugívoras para dispersão de sementes, representando assim uma barreira para a regeneração da mata (Pizo & Vieira 2004). Além disso, verificou-se que existe diferença na composição e distribuição das espécies de aves dispersoras entre os diferentes tamanhos de fragmentos, comprovando que o tamanho do fragmento está relacionado com a boa qualidade de dispersão e riqueza de espécies de aves dispersoras (Rabello et al., 2010).
A presença das espécies é determinada por uma gama de características que proporcionam o habitat ideal para sua sobrevivência. Por vezes são escolhidos indicadores ambientais para medir a qualidade do habitat para uma determinada espécie, como estrutura da vegetação, composição florística, pressão de herbivoria, disponibilidade de alimento, densidade e riqueza de competidores e de predadores potenciais (Vögeli et al. 2010). As conseqüências da alteração da qualidade do habitat são modificações nas abundâncias das populações e nas relações interespecíficas. Assim, a riqueza de grupos taxonômicos (Brandão 2002) ou a presença ou ausência de determinadas espécies podem ser usadas como indicadoras da qualidade do habitat. Até mesmo determinadas espécies podem usar a presença de competidores interespecíficos como indicador de qualidade de habitat para o seu estabelecimento em um determinado sitio (Parejo et al. 2004).
A qualidade do habitat pode compensar o efeito da fragmentação para determinados organismos, como foi observado para uma espécie de lagarto (Santos et al. 2008). Apesar disso, tanto o tamanho efetivo dos fragmentos quanto a qualidade do habitat são importantes para evitar extinções locais (Griffen & Drake 2008; Ramalho et al. 2009).

Referências
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Texto elaborado por Ricardo Mattos e Patricia Gomes, modificado de Carolina Abreu.