Fragmentação Natural e Mosaicos


A fragmentação é um processo pelo qual uma área grande e contínua é transformada em fragmentos menores e isolados entre si através de uma matriz de habitat diferente da original (Wilcove, et. al, 1986). Este processo pode ocorrer tanto de forma natural quanto através de atividades antrópicas, sendo a última a mais impactante causa da fragmentação em larga escala (Forman, 2001).A heterogeneidade natural na paisagem é causada por várias características físicas do ambiente, tais como a topografia e o tipo de solo. Além disso, dentro de um ambiente particular, a heterogeneidade é mantida por distúrbios naturais, como é o caso do regime de fogo, forças eólicas e surtos populacionais de insetos (Newman, 2000). Contudo, os principais fatores responsáveis pela fragmentação natural são: flutuações climáticas; heterogeneidade do solo; topografia; sedimentação e hidrodinâmica em corpos d’água; e processos hidrogeológicos. A fragmentação natural é um processo dinâmico, no entanto ocorre em um período de tempo muito mais longo do que a fragmentação antrópica e diferentemente desta, gera fragmentos capazes de permitir a persistência das espécies (Constantino et. al, 2003).

Por se tratar de um processo que ocorre em uma escala temporal mais lenta, durante o processo de fragmentação natural as espécies tendem a se adaptar às transformações da paisagem; em contrapartida com o forte aumento do intensivo processo de fragmentação gerado pelas atividades humanas, a perda estrutural e qualitativa de habitat tem aumentado o número de espécies ameaçadas (Primack, 2006). Nesse sentido, é importante ressaltar que tanto a especiação quanto a extinção podem ser conseqüências da fragmentação natural de habitat (Newman, 2000).Assim, alguns fragmentos naturais mais antigos contêm espécies endêmicas podendo ser considerados como áreas prioritárias de conservação. Portanto, para se estabelecer políticas públicas voltadas à tomada de decisão sobre conservação, os fragmentos naturais devem ser diferenciados dos fragmentos antrópicos, já que um grande número destes fragmentos contém espécies endêmicas e populações diferenciadas. Essa diferenciação de populações sugere a preservação destes fragmentos, mantendo-os desconectados, uma vez que a ligação entre eles poderia levar a um desequilíbrio da estrutura populacional e causar extinções locais (Constantino et. al, 2003).Como exemplos de fragmentação natural pode-se citar a formação de savanas amazônicas (por fatores edáficos e climáticos), brejos de altitude em meio à caatinga no nordeste brasileiro (formados por modificações do relevo, padrões de precipitação e umidade) e matas higrófilas na Mata Atlântica (formadas pela heterogeneidade do solo e regime hídrico).Distúrbios naturais e atividades antrópicas interagem gerando paisagens heterogêneas, as quais são constituídas por diferentes elementos que juntos constituem um verdadeiro mosaico na paisagem. Estes elementos da paisagem podem ser tanto de origem natural quanto antrópica e, assim, estabelecem os padrões observados nos ecossistemas (Figura1) (Forman, 2001).
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Figura 1. Fatores formadores da paisagem, seus atributos e relacionamentos. Fonte: Zonneveld, 1972


Para Metzger (2001), a paisagem consiste em um mosaico de unidades interativas onde a heterogeneidade existe para pelo menos um fator, de acordo com um observador e uma determinada escala de observação. Portanto, o mosaico da paisagem é um sistema formado por matriz, mancha e corredores. A matriz da paisagem corresponde a uma área de grande extensão com variados tipos de ecossistemas os quais são relativamente semelhantes no que diz respeito a suas funções e origens (Forman, 2001). Dentro dessa matriz, existem manchas as quais se diferenciam da matriz circundante, sendo relativamente homogêneas e não-lineares. Ligando essas manchas, podem existir corredores que são importantes elementos lineares da paisagem que permitem a dispersão animal, possibilitando ainda a transferência de informação genética entre as manchas, auxiliando no manejo integrado de pragas e fornecendo habitat a animais não-caçáveis (Odum & Barrett, 2004). Entretanto, os corredores podem apresentar efeitos negativos como a transmissão de doenças contagiosas, propagação de perturbações e maior exposição à predação (Simberloff & Cox, 1987).Finalmente, o mosaico da paisagem define um padrão estrutural particular de cada paisagem, sendo formado por distintos processos bióticos e abióticos, de origem natural ou antrópica, mas que de uma forma geral apresentam essa estrutura fundamental.

Sugestões de Leitura

  • Renjifo, L. M. 2001. Effect of natural and anthropogenic landscape matrices on the abundance of subandean bird species. Ecological Applications, 11 (1): 14-31.
  • Schmiegelow, F. K. A.; Monnkonen, M. 2002. Habitat loss and fragmentation dynamic landscapes: avian perspectives from the boreal forest. Ecological Applications, 12 (2): 375-389.
  • Turner, M. 2005. Landscape ecology: what is the state of science? Annu. Rev. Ecol. Evol. Syst., 36: 319-344.
  • Theobald, D. M. 2010. Estimating natural landscape changes from 1992 to 2030 in the conterminous US. Landscape Ecology, 25: 999-1011.

Referências

  • Constantino, R. et. al. Causas naturais. In: Ministério do Meio Ambiente. 2003. Fragmentação de ecossistemas: causas, efeitos sobre a biodiversidade e recomendações de políticas públicas. Brasília: MMA/SBF. 44-63.
  • Forman, R. T. T. 2001. Land mosaics: the ecology of landscape and regions. Cambridge: Cambridge University Press. 412-415.
  • Metzger, J. P. 2001. O que é ecologia de paisagens? Biota Neotropica, 1: (1-2), 1-9.
  • Newman, E. I. 2000. Applied ecology and environmental management. 2nd edition. Singapore: Blackwall Science. 281-324.
  • Primack, R. B. 2006. Essentials of conservation biology. 4th edition. Summerland: Sinauer Associates.
  • Odum, E. P.; Barrett, G. W. Fundamentals of Ecology. 2004. Belmont: Thompson Brooks/Cole. 374-405.
  • Simberloff, D. S.; Cox, J. 1987. Consequences and costs of conservation corridors. Conservation Biology, 1: 63-71.
  • Wilcove, D. S.; McLellan, C. H.; Dobson, A. P. 1986. Habitat fragmentation in temperate zone. In: Soulé, M. E. Conservation biology: the science of scarcity and diversity. Sunderland: Sinauer. 237-256.
  • Zonneveld, I. S. 1989. The land unit: a fundamental concept in landscape ecology, and its application. Landscape Ecology, 5 (2): 67-86.

Texto elaborado por: Diego Magalhães