Heterogeneidade da Matriz


Uma das maiores ameaças à biodiversidade é a fragmentação de hábitats naturais. Esse processo inicia-se com a destruição de pequenas áreas de vegetação natural que são posteriormente expandidas, dando origem a matriz. Nesse momento, a conectividade da vegetação natural é interrompida, comprometendo a integridade biológica (Noss & Csuti 1997). Estudos sobre a fragmentação de hábitats geralmente enfatizam a importância do tamanho (Hovel & Lipcius 2001) e isolamento (Davies et al. 2000) dos fragmentos, principalmente porque a diminuição do tamanho das áreas nativas implica em uma redução do tamanho populacional e as barreiras e o isolamento resultantes dessa fragmentação reduzem o fluxo gênico, aumentando consequentemente as chances de deriva genética e de depressão endogâmica. Devido à perda da variabilidade genética resultantes desses mecanismos, as populações tornam-se mais vulneráveis às variações estocásticas do ambiente e consequentemente, mais susceptíveis à extinção (Kageyama et al. 1998). A matriz, entretanto, também afeta populações e comunidades fragmentadas (Laurance 1991; Estades & Temple 1999; Ricketts 2001).
A matriz é geralmente uma área heterogênea, composta de áreas com diferentes tipos de cobertura e usos (Davies et al. 2001; Lindenmayer & Franklin 2002). Dependendo de sua composição e estrutura a matriz pode oferecer recursos alimentares e mesmo sítios de reprodução que podem ser explorados ou tolerados por algumas espécies, cujas populações podem permanecer estáveis ou mesmo aumentar em abundância ao longo do processo de fragmentação (Pearson 1993). Alguns estudos com aves têm revelado a importância da matriz na estruturação de populações fragmentadas. Por exemplo, para aves que habitam manchas de florestas, a inabilidade de algumas espécies em usar a matriz é o principal fator citado para o declínio e extinção de populações (Diamond et al. 1987; Gascon et al. 1999). Muitas aves de florestas sensíveis a fragmentação preferem colonizar porções da matriz que são estruturalmente similares a florestas primárias (Gascon et al. 1999; Stouffer & Borges 2001), que tem sido utilizadas menos intensivamente por humanos, e que estão em estágios mais avançados de regeneração (Silva et al. 1996), ou que estão mais próximas de áreas florestais (Tubelis et al. 2004). Em resumo, dependendo das especificidades de determinada espécie e das características estruturais da matriz, esse ambiente pode funcionar como barreira, aprisionando os indivíduos em um fragmento de hábitat adequado, ou ter qualidade (sítios de alimentação e refúgios) suficiente para permitir a dispersão.

Referências
Davies, K.F.; Margules, C.R. & Lawrence, K.F. (2000). Which traits of species predict population declines in experimental forest fragments?. Ecology 81: 1450–1461.
Davies, K.F.,; Gascon, C. & Margules, C.R. (2001). Habitat fragmentation: consequences, management, and future research priorities. In: Soule, M.E. & Orians, G.H. (Eds.), Conservation Biology: Research Priorities for the Next Decade. Island Press, Washington, pp. 81–97.
Diamond, J.M.; Bishop, K.D. & Van Balen, S. (1987). Bird survival in an isolated Javan Woodland: island or mirror?. Conservation Biology 1: 132–142.
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Gascon, C.; Lovejoy, T.E.; Bierregaard Jr., R.O.; Malcolm, J.R.; Stouffer, P.C.; Vasconcelos, H.L.; Laurance, W.F.; Zimmerman, B.; Tocher, M. & Borges, S. (1999). Matrix habitat and species richness in tropical forest remnants. Biological Conservation 91: 223–229.
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Kageyama, P.Y.; Gandara, F.B. & Souza, L.M.I. (1998). Consequências genéticas da fragmentação sobre populações de espécies arbóreas. Série Técnica IPEF (12): 65-70.
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Tubelis, D.P.; Cowling, A. & Donnelly, C. (2004). Landscape supplementation in adjacent savannas and its implications for the design of corridors for forest birds in the central Cerrado, Brazil. Biological Conservation 118: 353–364.