Por Emilia Braga e Fernanda Keley Navarro

Paisagem é um mosaico heterogêneo formado por unidades interativas, sendo esta heterogeneidade existente para pelo menos um fator, segundo um observador e numa determinada escala de observação (Metzger, 2001). O “mosaico heterogêneo” no qual o autor se refere é uma referência à vista humana, ou “onde a vista alcança”.

Em um mundo dominado pela atividade humana, as paisagens naturais, anteriormente dominantes, foram fragmentadas e agora predominam as paisagens antropizadas, onde os mosaicos que as constituem apresentam natureza e função diferenciadas.

Segundo Forman & Godron (1986), a paisagem pode ser classificada da seguinte forma:

1. Paisagem Natural: Sem significativo impacto humano;

2. Paisagem Manejada: Por exemplo, pastos ou florestas, onde as espécies nativas são manejadas e cultivadas;

3. Paisagem Cultivada: Com vilas e manchas de ecossistemas naturais ou manejados;

4. Paisagem Suburbana: áreas urbana ou rural com manchas heterogêneas de áreas residenciais, centros comerciais, pastos, vegetação cultivada, e áreas naturais;

5. Paisagem Urbana: Uma grande matriz com vários quilômetros densamente construída.

Paisagens manejadas são constituídas de manchas de vegetação nativa remanescente de diversos tamanhos e com diferentes graus de isolamento entre elas, imersas em uma matriz intensamente modificada (Fig. 1).

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Figura 1. Mosaico de fragmentos de diferentes usos, uma paisagem manejada (Fonte: ProCure LLC)

A qualidade da matriz ou os tipos de atividades do mosaico da paisagem manejada podem garantir o sucesso ou insucesso da manutenção da biodiversidade dos fragmentos remanescentes. Mosaicos com múltiplos usos da terra em uma paisagem manejada podem permitir o movimento de populações por meio de “ligações” entre florestas próximas; já paisagens extremamente modificadas dificultam esse movimento, podendo até causar extinção local de espécies.

Sobre essas paisagens, pode-se citar o uso da terra para agricultura ou pastagens, construção de rodovias e ferrovias, inundações causadas por barragens e hidrelétricas, que atuam, assim, como barreiras para dispersão e movimentação de espécies animais e vegetais.

Distância a ser vencida: grandes plantações e lâminas d’água artificiais.

Estudos com aves em diversos tipos de remanescentes florestais concordam que vastas áreas abertas, como áreas de monocultura, possam ser barreiras que impeçam indivíduos ou grupos de se deslocarem de um fragmento ao outro.

Laurance et al. (2002) constataram que, eventualmente, alguns Passeriformes amazônicos poderiam atravessar áreas abertas de até 320m dependendo de sua motivação, mas que, em geral, para algumas espécies insetívoras, uma clareira de apenas 80m pode ser uma barreira instransponível.

Outro tipo claro de barreira são os lagos artificiais, muito frequentes em todo o país. São construídas barragens em rios e, por inundação, é criada uma vasta lâmina d’água, e as espécies que antes precisavam transpor o rio, agora são impedidas ou desencorajadas a vencer um trajeto muitas vezes maior. Além de aumentar a distância entre fragmentos de floresta nativa, ao serem construídas barragens, o nível da água aumenta muito rapidamente, findando por confinar animais em pequenos remanescentes denominadas “ilhas”.

Assim aconteceu na região do médio Jaguaribe, na cidade de Nova Jaguaribara. O enchimento do açude Castanhão, em 2004, foram submersos aproximados 32 mil hectares de Caatinga, área comparativamente pouco menor à baía de Guanabara (Cavalcante, 2007). Durante a inundação dezenas de ilhas de variados tamanhos, formas, graus de isolamento surgiram (Fig. 2), então IBAMA e outros órgãos públicos regionais e estaduais se mobilizaram para resgatar animais que fugiram para os lugares mais altos da planície e terminaram presos em copas de árvores e pontas de pedras (Diário do Nordeste, 2004).

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Figura 2. Fotografia aérea do Açude Castanhão, no município de Nova Jaguaribara, Ceará. Ao longo da lâmina d’água, várias ilhas de vegetação remanescente são refúgio para animais que não conseguem vencer a distância até a margem (Fonte: Wikipedia).



A ameaça vem de fora: efeito de borda.

Entende-se por “efeito de borda” as modificações abióticas ou bióticas diretas ou indiretas que uma vegetação nativa sofre por influência da modificação do uso da terra da área contígua (Murcia, 1995). As modificações causadas à vegetação e à fauna variam dependendo da natureza da atividade da área contígua e do tipo de vegetação nativa (Fig. 3). Mais informações sobre o efeito de borda podem ser vistos em “Efeito de borda e qualidade de habitat”.


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Figura 3. Ilustração de perfil de uma vegetação florestal sob influência de duas bordas, uma abrupta (abrubt edge) e uma gradual (gradual edge). Fonte: Proust Bushland Services.




Os perigos do caminho: estradas.

Particularmente, a construção de estradas é um mecanismo de fragmentação de alto impacto, removendo a cobertura vegetal original, gerando efeito de borda e alterando a estrutura e função da paisagem. O atropelamento de animais é a fonte primária de morte em estradas; no Brasil há poucos levantamentos, e quando os há, são pontuais, mas estimativas de estudos faunísticos na Flórida catalogam até 16% da população de cervos (Odocoileus virginianus clavium) sendo mortas por estradas.

Em Santa Catarina, um registro de ocorrências de mortes de médios e grandes mamíferos em algumas rodovias estaduais e federais catalogou, em cinco anos, 257 indivíduos de 20 espécies mortos por atropelamento. Destas, três espécies de felinos ameaçados de extinção (Gato-do-mato Leopardus tigrinus, Gato-maracajá L. wiedii e L. sp) (Cherem et al. 2007).



Referências

Cavalcante, A.M.B. 2007. Ilhas artificiais lacustres do Semi-árido brasileiro: novos espaços para estudos ecológicos. In: Congresso de Ecologia do Brasil, VIII, Caxambu. Anais... Caxambu: Sociedade de Ecologia do Brasil.

<www.seb-ecologia.org.br/viiiceb/palestrantes/arnobio.pdf>

Cherem, J.J.; Kammers, M.; Ghizoni-Jr, I.R. & Martins, A. 2007. Mamíferos de médio e grande porte atropelados em rodovias do Estado de Santa Catarina, Sul do Brasil. Revista Biotemas 20 (2): 81-96.

<www.biotemas.ufsc.br/volumes/pdf/volume203/p81a96.pdf>

Diário do Nordeste, 2004. Animais resgatados da cheia do Castanhão. Disponível on-line: <http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=142076>

Forman, R.T.T. & Godron, M. 1986. Landscape ecology. John Wiley & Sons, 619p.

Laurance, W.F.; Lovejoy, T.E.; Vasconcelos, H.L.; Bruna, E.M.; Didham, R.K.; Stouffer, P.C.; Gascon, C.; Bierregaard, R.O.; Laurance, S.G. & Sampaio, E. 2002. Ecosystem decay of Amazonian Forest fragments: a 22-year investigation. Conservation Biology 16 (3): 605-618.

<http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1523-1739.2002.01025.x/full>

Metzger, Jean Paul. 2001. O que é ecologia de paisagens? Biota Neotropica, Campinas, SP, volume 1, número 1, dezembro.

<eco.ib.usp.br/lepac/paisagem/Artigos_Jean/Metzger_biota_paisagem_2001.pdf>

Murcia, C., 1995. Edge effects in fragmented forests: implications for conservation. Trends in Ecology and Evolution, 10 (2): 58-62.

<http://research.eeescience.utoledo.edu/lees/Teaching/EEES4760_05/Murcia95.pdf>